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  Tarantino
  26/5/2008

A lição do professor Tarantino

   
  Quem é a rock star de Tarantino? Quem está no seu panteão? O que é que ele pensa dos hambúrgueres europeus? Cannes ouviu uma "Lição de Cinema" de Quentin Tarantino, mais de 15 anos depois de Cães Danados ter assustado a Croisette.

Não cabe mais ninguém na sala, mas é preciso vagar as coxias por momentos, mandar levantar quem está há uma hora sentado a guardar lugar, à espera. Os guarda-costas insistem que é preciso manter uma distância de segurança com o professor, que aí vem de napa preta e botas. Para o proteger. De quê? "Levantem-se, por favor, é só enquanto ele passa".

Enquanto ele passa gritam estudantes de cinema, gritam jovens cineastas de todo o mundo que vieram apresentar os seus filmes no Festival de Cannes, gritam jornalistas - que são em menor número do que os outros -, estão todos de pé. Até grita Faye Dunaway, actriz de luvas de renda e uma cara que já não é bem a sua.

Às 14h30, Quentin Tarantino entra na Sala Debussy para dar a sua "Lição de Cinema", título pomposo para uma iniciativa que é habitual no festival: juntar um cineasta e um crítico - neste caso, Michel Ciment, da revista Positif - para uma conversa informal sobre filmes, com direito a clips da obra.

Mas o que é que há para saber sobre Quentin Tarantino que já não se sabia?
"Para já, queria dizer que há uma coisa que tem sido exagerada, desproporcionada, em relação a mim. Diz-se que foram os cinco anos que passei como empregado de uma loja de vídeos de Manhattan Beach, a Video Archives, que me fez aprender a ver cinema. É exagerado porque fui contratado pela Video Archives precisamente PORQUE JÁ ERA ESPECIALISTA EM FILMES.
Allrighhhttt?!!"
Allright!
Quentin continua. Foi na Video Archives, onde tinha acesso a "todos os realizadores, a todos os filmes", que se tornou "fã de Eric Rohmer"- eis uma vénia ao público francês e uma surpresa para os que, mesmo sabendo da devoção que tem por Godard, ao ponto de ter chamado à sua produtora A Band Apart (a partir de "Bande à part", de Jean-Luc), não o imaginavam fã da cultura clássica e dos jogos intelectuais daquele outro representante da Nouvelle Vague. Mas muito antes da Video Archives, o pequeno Quentin, que deixou a escola antes de acabar o liceu, já marcava na TV Guia lá do sítio os títulos a ver durante a semana na televisão.

Tarantino é daqueles que quando descobre um cineasta através de um filme precisa de "ver todos os filmes desse cineasta, de acentada", como se sofresse só de pensar que há hipótese de outros se apaixonarem primeiro, ou também, por aquele universo. Neste momento, por exemplo, em que está em fase de escrita de argumento (não se descose: é para "Machete", desenvolvendo para o formato de longa-metragem um dos falsos trailers que acompanhou a sessão dupla Grindhouse, ou para Inglorious Bastards, o seu prometido filme de guerra?), vê toda a obra de Paul Mazursky.

Recorda-se de um ano inteiro a ver na TV uma integral de Howard Hawks, cineasta que está no seu top. Como Brian de Palma (my rock star), Sergio Leone, Scorsese ("se calhar, por o meu trabalho estar tão próximo dele, não costumo dar-lhe muito crédito em público" - mas foi visto no ano passado a assistir à Leçon de Cinéma de Martin). E Samuel Fuller, Robert Aldrich, Sam Peckinpah, Dario Argento, Mario Bava, George Romero...

O inquilino

Palma de Ouro em Cannes por Pulp Fiction, em 1994 (júri presidido por Clint Eastwood e Catherine Deneuve), Quentin Tarantino é um inquilino do festival, onde apresentou uma sessão única com Kill Bill 1 e 2.
Em 1992 Cães Danados foi descoberto na Quinzena dos Realizadores. Foi um susto. Há quem se lembre de não se lembrar de nada assim, tão violento, tão pulsional, no cinema americano desde Cavaleiros do Asfalto/Mean Streets, de Scorsese. E isso tinha sido em 1973.

Quentin chegou em 1992 à Croisette de comboio, de Amesterdão, onde estava a passar a sua primeira temporada fora dos EUA, de onde nunca tinha saído. (E só uma vez tinha saído de Los Angeles, da casa onde vivia com a mãe, para um outro estado americano.) Foi nessa viagem europeia que provou a versão francesa do hambúrguer Royale with Cheese, que terá o condão de levar à histeria os americanos em aventura parisiense. Há uma cena sobre isso em Pulp Fiction, entre John Travolta e Samuel L. Jackson.

Antes de realizar Cães Danados, que não foi a sua primeira experiência de realização (essa foi My Best Friend's Birthday, 1987, uma silly comedy, um home movie que rodou em 16 mm durante uma semana, curta-metragem que mais tarde foi ampliando, em fins-de-semana, durante três anos), desenvolveu cenas do filme num workshop no Festival de Sundance. Ele e Steve Buscemi, que seria um dos "cães" no filme, dedicaram-se nesse workshop a "experimentar com planos longos" a partir do argumento. O grupo de monitores que o guiava odiou o que ele estava a querer fazer. "Nós também gostamos de Godard, ok, mas isso...", diziam-lhe, e Quentin lá ia pensar para os bosques nevados do Utah.

Veio um segundo grupo de monitores, Terry Gilliam, Stanley Donen, Volker Schlondorff. Terry: "Just great! Adoro isso". O alemão Volker, sotaque carregado: "Ahh! Ze little zenius...". Lá foi o pequeno génio outra vez para o bosque nevado, confuso: "Aí percebi que ia ser assim a minha carreira: as pessoas vão adorar-me ou odiar-me.
That's what it takes".

O travelling

Os planos longos, a aproximação teatral, ficaram como imagem de marca logo em "Cães Danados". "Há várias coisas que gosto muito de fazer. Uma é fazer piadas com coisas que não têm piada. A outra é cenas longas com humor e tensão. Muitos realizadores filmam cena atrás de cena para construirem com essa sucessão qualquer coisa. Eu fico ali, na cena, 10 minutos se for preciso, com as personagens e com a tensão. Cenas organizadas de forma teatral". A sequência de abertura de Cães Danados, para quem não se esqueceu, são mais de 10 minutos com um travelling circular da câmara à volta de Buscemi, Harvey Keitel, Tim Roth, Chris Penn, Tarantino... e os outros "cães" que discutem o universo fálico de Madonna - onde é que há mais pilas, em Like a Virgin ou em True Blue?

"Como é que não podia utilizar um movimento de câmara circular? Sou fã de Brian de Palma, roubei-lhe isso - embora ele use esses movimentos para cenas de amor, eu faço outra coisa com eles. Gosto desse sentimento de a câmara circular, as pessoas estarem a falar, ela a dar as voltas e a "apanhar" no plano por acaso a pessoa e aquilo que se está a ouvir. Mas se resultou é porque eu estava também na cena, como actor. Eu monotorizava a energia dos outros actores".

Quentin não tem formação de escola de cinema, tem formação como actor. Estudou seis anos numa acting school, e foi aí que começou a escrever os seus primeiros diálogos. Para fazer os seus exercícios, para os seus ensaios, como não tinha acesso aos argumentos dos filmes que via, "mas tinha boa memória", lembrava-se de uma cena, "por exemplo, de A Leste do Paraíso, e escrevia-a". Do que não se lembrava, "inventava". Foi assim que acrescentou monólogos "cheios de erros e gralhas" ao sacrossanto argumento que Paddy Chayevsky escrevera para o oscarizado Marty, de Delbert Mann. Isto para Tarantino é decisivo: "Quando se é realizador, é-se responsável pela cena, por isso temos que saber tudo sobre os actores e sobre a escrita de argumento. Ora, tudo o que aprendi sobre a escrita aprendi na escola de representação, não numa escola de cinema. Quando explico algo sobre as personagens dos meus filmes, utilizo sempre o jargão dos actores, é assim que falo". Era assim que falavam os Cães Danados: como actores frente ao espelho de um imaginário cheio de filmes de gangsters.

Escola de cinema? "Fazer um filme sem nada, sem dinheiro, sem material, eis a melhor escola de cinema".

Vasco Câmara, em Cannes (PÚBLICO)  

 
   
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