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  O pireliógrafo não vingou porque na altura não havia muito interesse na energia solar
  11/2/2005

Filme recorda o padre que derretia pedras num forno solar

   
  Quando ninguém valorizava as energias alternativas, um português já tinha projectado um gigantesco forno solar. O engenho venceu há 100 anos o grande prémio da Exposição Universal de St. Louis, nos Estados Unidos. A distinção não foi suficiente para coroar de êxito o inventor Padre Himalaya - Manuel António Gomes (1868-1933) era alcunhado com o nome dessa ata cordilheira por causa da sua estatura -, que enfrentou revés financeiros e o desinteresse da indústria até ao fim da vida. A biografia deste visionário é agora evocada em "A Utopia do Padre Himalaya", de Jorge António, um documentário com antestreia hoje à noite no Porto, no Teatro Rivoli (depois de em Janeiro ter tido uma antestreia na Cinemateca, em Lisboa).

A colossal estrutura de aço, munida de milhares de espelhos virados para o sol, deixou boquiabertos os visitantes da Exposição de St. Louis. Não era para menos: a criação do Padre Himalaya, o pirelióforo, conseguia concentrar calor suficiente (3.500 graus) para derreter blocos de granito ou basalto. Para narrar esta experiência pioneira, Jorge António vale-se das cartas que o sacerdote escrevia ao irmão, provavelmente o seu maior cúmplice e confidente.

As missivas chegam até nós em voz "off", sobrepostas a imagens históricas, uma solução que permite ao espectador conhecer as ideias mais secretas do inventor. Descobrimos, por exemplo, que quer ser incansável na "leitura do grande livro que Deus escreveu" - a Natureza, uma obra prodigiosa que, na sua opinião, estava ainda pouco decifrada pelo homem. Talvez por uma atitude ciosa, talvez pela consciência de estar à frente do seu tempo, Himalaya insiste sempre que o irmão jamais comente com outras pessoas as suas investigações.

Uma leitura despretensiosa do livro "A Conspiração Solar do Padre Himalaya" (Edição Cooperativa Árvore, 1999), de Jacinto Rodrigues, é suficiente para atestar o trabalho prolífero do sacerdote. Registou patentes como uma farinha alimentar de crustáceos, um processo de reutilização de esgotos para a produção de adubos e até uma pólvora resistente à fricção e ao choque.

O negócio fracassado da "himalayite"
Quando o exército norte-americano se mostrou interessado no explosivo baseado em cloreto de potássio, baptizado de "himalayite", o inventor rejeitou a oferta por razões patrióticas. Montou em Portugal uma fábrica do produto mas, com o início da I Guerra Mundial, esta produção é proibida no país e o negócio fracassa.

Jacinto Rodrigues, professor da Faculdade de Arquitectura do Porto, começou a investigar a vida do sacerdote em 1975. Tudo começou com a descoberta de um livro num alfarrabista. E é com a recomposição desta cena que Jorge António abre o documentário de 52 minutos, que revisita não só a casa onde viveu o Padre Himalaya, mas também relatos dos familiares, memórias de quem com ele privou, objectos pessoais, documentos de época e até lugares por onde o inventor passou - é o caso da aldeia de Sorède, nos Pirinéus Orientais, onde montou outra máquina para optimizar a energia solar.

Apesar de tantos manuscritos, projectos, ideias e experiências, o Padre Himalaya não conseguiu fortuna. Numa altura em que se fazia o elogio da indústria automóvel e do petróleo, as suas invenções não despertavam grande interesse. E até a sua única criação famosa - o pirelióforo aplaudido nos EUA - participou na competição sem o apoio oficial de Portugal.

Não fosse o mecenato científico de alguns entusiastas, como a Condessa de Penha Longa, o estudioso nem meios teria para trabalhar. O Padre Himalaya morreu aos 65 anos, num lar para idosos entrevados, em Viana do Castelo, onde tinha trabalhado como capelão. Mereceu apenas um enterro simples, que reuniu a presença de poucas pessoas, e algumas notas em jornais da época.

O filme de Jorge António procura, baseando-se na investigação realizada por Jacinto Rodrigues, prestar um tributo tardio ao português que participou na história das energias renováveis. "A Utopia do Padre Himalaya" é o terceiro documentário do autor, que já realizou "Outras Frases" (2003) e "Uma Frase Qualquer" (1996).

Andréia Azevedo Soares (PÚBLICO)  

 
   
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