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  19/11/2009

A segunda juventude de Francis Ford Coppola

   
  Como é que se reinicia uma carreira depois de quarenta anos, cinco Oscares e meia-dúzia de clássicos do cinema? A resposta de Coppola, quando "Tetro" chega às salas portuguesas: começar de novo como se fosse um estudante. Será possível?

É difícil ser Francis Ford Coppola.
É o próprio quem o diz ao Ípsilon.
"Hoje, o meu nome só ajuda se eu quiser que me tirem muitas fotos, ou se quiser assinar muitos autógrafos. A maior parte das vezes é um embaraço - porque entro numa sala como se fosse um fenómeno e não a pessoa normal que sou..."

O cineasta americano, 70 anos, diz estas palavras com leve tom de desencanto, ao final da manhã de um domingo cinzento num hotel em Cascais, rodeado por técnicos que se afadigam a montar e desmontar iluminação e câmaras para entrevistas televisivas, sob o olhar atento dos relações públicas do Estoril Film Festival.

Podia ser um mero desabafo do autor dos "Padrinhos", mas a prova surge horas mais tarde: a sua entrada na sala de imprensa do Centro de Congressos do Estoril é acompanhada por uma multidão de fotógrafos que o voltarão a rodear no final da conferência de imprensa, em alguns casos com DVDs dos seus filmes clássicos para autografar.

Ossos do ofício, diríamos - embora, alguns minutos antes de dizer ao Ípsilon aquelas palavras, Coppola tivesse dito igualmente que "nunca ninguém prometeu que ser um artista implicasse também ser-se rico e famoso." Mas esse relativo desconforto com a imagem de grande cineasta atribuída por filmes como "O Padrinho" (1972/1974/1990), "Apocalypse Now" (1979) ou "Drácula de Bram Stoker" (1992), é uma das marcas do Coppola colheita 2009, em Portugal a apresentar "Tetro" - o "segundo filme da minha segunda carreira" (nas salas desde ontem). Por "segunda carreira", define o seu retorno à realização em 2007, após dez anos sem filmar, em regime de absoluta independência - financiando ele próprio os seus filmes com os proveitos das suas empresas vinícolas e turísticas, rodando em regime de "economia total" fora do sistema de estúdios dentro do qual passou a maior parte do seu percurso e com o qual não quer voltar a ter nada a ver.

Trocou-lhe as voltas

O primeiro filme dessa "segunda carreira" foi, em 2007, "Uma Segunda Juventude". Inspirado numa história do filósofo Mircea Eliade, falava de um académico a quem era dada uma segunda oportunidade para viver - e o paralelo com um cineasta apostado a dar-se a si próprio uma segunda oportunidade não estava longe da cabeça de Coppola.
"Havia de facto alguma relevância na história faustiana de um idoso que volta a ser jovem - no fundo, eu queria voltar a ser um estudante de cinema, fazer as coisas que achava que queria fazer quando tinha 21 anos. Nessa altura, a carreira que eu tinha em mente era usar as técnicas de pequeno orçamento do Roger Corman para fazer filmezinhos de autor, e quando precisasse de dar de comer aos miúdos, fazia um filme de terror..."

Mas a vida trocou-lhe as voltas - guionista reconhecido em meados da década de 1960, com créditos em filmes como "Paris Já Está a Arder?" ou "Patton", autor de dois "filmes pequenos" que não registaram ("Dementia 13", 1963, produzido por Corman, e "You're a Big Boy Now", 1966), viu-se promovido a realizador de estúdio à terceira longa, "O Vale do Arco-Íris" (1968), adaptação de um musical da Broadway com Fred Astaire e Petula Clark que foi uma experiência desastrosa.
"Disse a mim próprio que não queria fazer filmes daquela maneira. Imediatamente a seguir fui para a estrada rodar 'Chove no Meu Coração', que é o exemplo daquilo a que me refiro quando falo da escola de cinema de pequeno orçamento do Roger Corman - não se deita dinheiro à rua, tem-se uma equipa pequena, viaja-se com pouco equipamento, está-se aberto a todo o tipo de coisas que possam acontecer durante a produção. E foi precisamente isso a que me abri quando fui para a Roménia."

"Chove no Meu Coração" (1969), contudo, foi o último "filme pequeno" que Coppola ainda conseguiu fazer. A seguir, veio o triunfo improvável de "O Padrinho" e uma das carreiras mais escrutinadas do cinema americano dos anos 1970 e 1980, pontuada pela incapacidade de fugir às estruturas e esquemas dos estúdios.
"Uma Segunda Juventude", inteiramente rodado na Roménia, foi o seu regresso, quarenta anos depois, a essa forma de fazer cinema quase improvisada: "Instalei todo o equipamento de que ia precisar num camião, despachei-o para a Roménia, contratei apenas técnicos locais." E a experiência correu tão bem que reincidiu com "Tetro", retendo Mihai Malaimare Jr., o jovem director de fotografia com quem trabalhara em "Uma Segunda Juventude", mas rodando agora na Argentina com uma equipa local.

Correu bem, diga-se, em termos práticos - porque a recepção crítica e pública a "Uma Segunda Juventude" e a "Tetro" foi tudo menos unânime. Coppola não alimenta ilusões: "Sinto-me confortável com quaisquer afirmações desagradáveis sobre os meus filmes porque as tenho ouvido ao longo de toda a minha carreira. Lembro-me de ficar destroçado quando, depois de ter ganho todos os "scares por 'O Padrinho parte II', ninguém quis produzir 'Apocalypse Now'. Tive literalmente de investir tudo o que tinha. E quando o fiz, riram-se de mim, troçaram do filme, condenaram-no como a obra louca de um megalomaníaco. Agora dizem-me, 'Você já não consegue fazer filmes tão bons como quando era mais novo', e eu respondo-lhes, 'mas vocês também não gostaram deles na altura!'. Levou vinte anos para dizerem que 'Apocalypse Now' tinha valor, e provavelmente vai levar outros vinte para admitirem que 'Uma Segunda Juventude' é interessante. Aí vou estar morto - como o Bizet, que morreu a achar que a 'Carmen' era um fracasso... Mas já não me ralo com isso. Não tenho agente, nunca tive, não preciso de dinheiro, não estou a tentar enriquecer, não quero ter uma carreira, ninguém me telefona a perguntar se quero dirigir o 'Homem Aranha 3'."

À maneira de Tennessee Williams

Isto não quer dizer que renegue o que fez antes - na conferência de imprensa, citaria "O Vigilante" (1974) ou "Rumble Fish" (1983) como alguns dos seus filmes preferidos de entre os que realizou. E quer "Uma Segunda Juventude" quer "Tetro" exploram um regresso à fórmulas clássicas com as quais cresceu.
"Estou a entrar aos poucos nesta nova carreira e não posso exactamente deixar para trás a bagagem que carrego... Aos vinte anos, estudava teatro numa escola nos subúrbios de Nova Iorque e os deuses que admirávamos eram gente como Tennessee Williams, Elia Kazan, Marlon Brando... E nunca tive a oportunidade de fazer um filme como 'Tetro', que é modestamente um filme 'à maneira de' Tennessee Williams, alguém que tanto admiro. Os jovens artistas têm tendência a copiar os artistas de quem gostam, e ao fazê-lo libertam-se dessa imitação e encontram a sua própria voz. Eu próprio tenho de me libertar dessa imitação.

Claro que não roubei literalmente - deixei-me inspirar por, por admiração. Balzac falava do quanto os escritores mais jovens lhe iam roubar e de como ele gostava disso, de como ele os incentivava porque ao fazê-lo o tornariam parcialmente imortal, tal como ele havia feito com os escritores de quem gostava. Quando vi 'Blow-Up' [Michelangelo Antonioni], disse: 'quero fazer um filme assim.' E fiz 'O Vigilante'. É maravilhoso ver-se um filme fantástico e sermos motivados para fazer um filme por causa disso. E acho isso perfeitamente legítimo."

No fundo, trata-se de perseguir aquilo que motivava Coppola antes do sucesso de "O Padrinho" lhe ter aberto as portas de Hollywood, e da posterior necessidade de fazer filmes "alimentares" para pagar as contas das apostas falhadas. E, sobretudo, de perseguir a sua própria musa, o seu amor do cinema que "Tetro" mostra (com as suas citações assumidas dos "Sapatos Vermelhos" e dos "Contos de Hoffman" de Michael Powell e Emeric Pressburger, com o seu preto e branco luminoso herdado do cinema clássico). "Uma vez, perguntaram-me como era possível eu ter feito um filme tão aclamado como 'O Padrinho', e eu respondi: 'risco'. Não existe uma fórmula e é isso que falha actualmente em Hollywood. Os estúdios acham que podem inventar uma fórmula que garanta o sucesso comercial e falham completamente, mas não aceitam esse falhanço."

Mas não se trata de perseguir o risco apenas pelo risco, nem de reencontrar um qualquer entusiasmo perdido - "sempre me mantive em contacto com o miúdo que fui, pelo que nunca me preocupei em recuperar a inocência, o entusiasmo, o prazer. Sempre os tive. E foi por isso que me senti tão frustrado ao ser um realizador 'convencional'... Faço filmes de autor porque gosto, porque me dá prazer. Mas não estou à espera de ganhar dinheiro com eles. Distribuí 'Tetro' eu próprio e vou ter sorte se recuperar o investimento que fiz."

E para quem faz Coppola estes filmes de autor? "Para um público que gosta de cinema e quer vê-lo seguir caminhos mais variados do que aqueles que neste momento lhe é permitido seguir [pelos estúdios]." Um público composto "pelas mesmas pessoas para quem fiz 'O Vigilante' ou 'Apocalypse Now', que neles encontraram algo de válido." Um público que não conhece apenas o Coppola de "O Padrinho", e que lhe prefere o de "Rumble Fish" - que vê nele um cineasta que, mesmo pelo meio do desencanto, continua a acreditar que o cinema é mais do que apenas uma boa história bem contada.

E, por improvável que pareça, Coppola ri-se. "Como sou eu que me financio a mim próprio, sei que vou encontrar um otário para me pagar o próximo filme. Mas, para lá disso, não tenho certezas - não faço ideia do que vou fazer a seguir. E isso é excitante."

Jorge Mourinha (PÚBLICO) 

 
   
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