Ele e ela, Dinis e Maria (Rogério Samora e Carla Chambel), não se conhecem. Algures, numa área de serviço da auto-estrada Lisboa - Porto, ele pára para descansar. Ela também lá está e parece tão à deriva quanto ele: é um encontro fortuito que talvez não tenha nada de fortuito. Quase sem palavras, partem os dois no carro dele. A partir daí, sucedem-se as áreas de serviço, os motéis, as conversas e os silêncios, os mistérios e as revelações. Na sua solidão, cada um deles pode, pura e simplesmente, perder-se... ou, talvez, encontrar o outro. "98 Octanas" é a segunda colaboração de argumento do realizador Fernando Lopes e do crítico de cinema João Lopes, depois de "Lá Fora". PUBLICO.PT
Numa reportagem sobre a rodagem de "98 Octanas" publicada no PÙBLICO há um ano, Fernando Lopes evocava a tradição do "road movie" e da série B americana clássica. Contava que tinha dado a ver aos actores o "They Live By Night" de Nicholas Ray - podia ter dado o matricial "Detour" (1945) de Edgar G. Ulmer mas aí, ficando embora com todo o negrume patológico e existencialista da série B "de estrada", perdia a figura do par, do par acossado em fuga constante, que o filme de Ray categoricamente expõe. E o par, mais do que as autoestradas, mais do que a procura (e a presença) de um insólito urbanismo desenraizado (material proveniente do livro "Cimêncio" de Diogo Lopes e Nuno Cera, primeira inspiração do filme), é a figura dominante de "98 Octanas".
Fiquei muito desiludido com o filme. Primeiro, os actores portugueses nunca conseguem desfazer a sensação de que estão com a folha à frente do nariz a ler o seu papel: a representação soa completamente artificial, pouco natural, mal realizada. O argumento do filme é irreal. As personagens conhecem-se de forma impossível numa estação de serviço, todo o argumento é baseado no diálogo de duas personagens absolutamente enfadonhas. Desta maneira, ainda querem que as pessoas vejam cinema português? Tenham paciência...