Passaram 193 dias desde que Alice foi vista pela última vez. Todos os dias Mário (Nuno Lopes, numa magnífica interpretação), o seu pai, sai de casa e repete o mesmo percurso que fez no dia em que Alice desapareceu.
A obsessão de a encontrar leva-o a instalar uma série de câmaras de vídeo que registam o movimento das ruas. No meio de todos aqueles rostos, daquela multidão anónima, Mário procura uma pista, uma ajuda, um sinal...
A dor brutal causada pela ausência de Alice transformou Mário numa pessoa diferente mas essa procura obstinada e trágica, é talvez a única forma que ele tem para continuar a acreditar que um dia Alice vai aparecer.
"Alice" é a primeira longa-metragem de Marco Martins e ganhou o Prémio Regards Jeunes da Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes. O filme é dedicado a Filomena Teixeira, mãe de Rui Pedro, o rapaz desaparecido desde 1998 quando tinha onze anos. PUBLICO.PT
Estamos diante de uma obra que aparece como um primeiro filme. Nós ficamos assombrados pela sua qualidade. Sendo uma primeira obra, o espanto é desmedido. E a crítica nacional e internacional tem vindo a multiplicar-se em rasgados elogios. Contudo, esta película tem a força das obras que partem de uma ideia simples. Estranhamente simples, comovedoramente simples.
Começamos com o peso surdo dos corpos, de um pai e de uma mãe (Nuno Lopes e Beatriz Batarda) que nunca sairão do sono profundo do desespero pelo desaparecimento da filha - que nunca acordam verdadeiramente, apesar daquele plano que abre o filme dar essa ilusão. Este peso mantém-se ao longo de "Alice", estamos sempre nos momentos em que a realidade não se chegou materializar (ou já abandonou essa condição) e o filme faz disso a nossa experiência de espectadores (torna isso a sua impressão digital). Mergulhamos numa angústia sem cenário, como acontece nos pesadelos, em que o "background" mais do que se desmoronar, se dissolve.
Este filme é extremamente bonito na sua realidade nua e crua. A fotografia está genial e transmite os sentimentos que o filme pretende expressar. E a banda sonora pelo Bernardo Sassetti é simplesmente divina e adequada ao filme e à sua temática sombria. Adorei. Cinco estrelas.