Estúdios: BBC (British Broadcasting Corporation), HBO Films EUA/GB, 2004, Cores, 122 min.
argumento
O filme acompanha o turbulento percurso do cómico britânico, desde os tempos em que era um performer na estação de rádio BBC até se transformar num dos mais talentosos actores mundiais. Impulsionado por uma mãe excessivamente possessiva, Peter Sellers luta por conciliar o seu relacionamento com as mulheres, a sua fama e os seus múltiplos eus. Mas a confiança abandona-o apesar dos vários casamentos, o aplauso da crítica e o sucesso profissional. O filme revela-nos os tormentos íntimos que levaram este talentoso e carismático actor a dizer "odeio tudo o que faço". No entanto, relembra-nos porque é que ainda hoje Sellers é mundialmente considerado como um ícone cultural. PUBLICO.PT
O que perde este "biopic" é a incapacidade de resistir à tentação de "interpretar" a cabeça de Peter Sellers. Não é (ou não quer ser) um "relato
da vida", ambiciona ser uma "explicação da vida". É isso que o perde, nas sequências em que o Sellers-personagem toma o lugar dos seus familiares (ou amigos) e se dirige à câmara, ou nas divagações onírico-psicanalíticas como a que se segue ao ataque
cardíaco. Ver "o homem por detrás da máscara" é o
projecto; ora uma coisa não se separa da outra, ou fi ca-se sem homem e sem máscara - se há um sentido unitário na obra de Sellers é esse (e está expresso no Quilty da "Lolita", porventura a mais perturbante personagem da história do cinema). Fora isso, "Eu, Peter Sellers", resume- se a um apanhado de "fait divers" da vida de uma estrela de cinema, com todos
os condimentos do "biopic" que estão na moda (até uma
morte dada em "metáfora", como no Bobby Darin de Kevin Spacey), e no género até já se viu pior.
Peter Sellers é uma instituição no âmbito do humor britânico, sobretudo porque a figura essencial da década de 50, em que emerge na rádio, Alec Guiness parece ter sido esquecida ou colocada numa estranha reserva, destinada aos "clássicos sem grande préstimo". Sellers tem várias coisas a seu favor para obter os favores do público contemporâneo: não morreu há muito tempo, fez uma série de comédias de grande êxito comercial e entrou num filme de Stanley Kubrick (o clássico dos que têm pouca memória dos clássicos), "Dr. Strangelove". Passe o aparente cinismo desta introdução, o cómico tem um papel importante no desenvolvimento de um certo humor "nonsense", que vai desembocar, de certo modo, no grupo Monty Python, e possui a capacidade rara de se esvaziar de si para revestir as mais diversas personalidades e vozes.