Estúdios: Arte France Cinéma , Le Studio Canal+ FRA, 2003, Cores, 104 min.
Recomendado
pelo Cinecartaz
argumento
Basile Matin sabe que vai morrer. O problema é que, com a sua idade, adoraria ter toda uma vida pela frente. Igor é também jovem, estuda e trabalha, mas aborrece-se. No entanto, apesar de não compreender muito bem a história de Basile, interessa-se loucamente por ela. Já Johnny Got é um misto de jornalista, detective e sem-abrigo que gosta de histórias que não lhe dizem respeito. E a história de Basile apaixona-o tanto que vai à procura dela. PUBLICO.PT
É uma daquelas raras obras em que somos constantemente surpreendidos, em que nos é dado o grato privilégio de nunca podermos adivinhar o plano seguinte, um daqueles filmes irredutivelmente singulares que só por si são um mundo - a isto se chama cinema
"Os Bravos Não Têm Descanso" é a primeira longa-metragem de Alain Guiraudie, cineasta francês nascido em 1964 que já se tinha feito notar com um punhado de curtas e médias metragens. Guiraudie chegou relativamente tarde ao cinema, e começou a filmar já com perto de 40 anos. Os seus trabalhos prévios indicavam uma sensibilidade capaz de abordar uma determinada tradição realista do cinema francês com originalidade e vigor - e ancorada num fundo "político", quanto mais não seja pela reivindicação de um estatuto de "classe" (os "proletários", em terminologia antiga). É preciso dizer que Guiraudie reúne em si o tipo de "contradições" (por assim dizer) que costuma dar "cocktails" interessantes: é comunista, vem de uma família católica de direita, é homossexual, foi operário...
Depois de numa das edições passadas do DocLisboa termos visto um belíssimo pedaço de utopia proletária - os fantasmas de Tati, Renoir e Demy no cenário de uma fábrica que estava a ser desmantelada, em "Ce Vieux Rêve qui Bouge", média-metragem -, chega agora a primeira longa daquele que é já uma das confirmações do cinema francês. Guiraudie é um caso de autodidactismo, com um imaginário popular sacudido por uma veia surrealizante que abre um filme à possibilidade de conter todos os géneros, do musical ao fantástico e ao "western" - e colocando as personagens numa vacilação eufórica, de tudo incluindo da sexualidade. O que é "Os Bravos não têm Descanso"? Muitas coisas que um texto não consegue conter. É um filme sobre a passagem da adolescência; é um filme sobre o espaço rural como património lendário. É um filme fantástico. E um musical e até um "western". Está sempre tudo entre uma coisa e outra que a excede. Há duas aldeias - uma "que está viva" e outra "que está morta"; há personagens que se recusam dormir para não morrer - em trânsito entre sonho e realidade; há uma rein-venção permanente de cenários (portas no campo que se abrem literalmente a outros mundos) e de cores. Como é possível perder este filme?