Estúdios: Goatworks Films ARG, 2004, Cores, 135 min.
Recomendado
pelo Cinecartaz
argumento
O vinho é um símbolo da civilização ocidental há milhares de anos. Mas nunca, até hoje, a luta pela sua alma foi tão desesperada. E nunca houve tanto dinheiro, e orgulho, em jogo. No entanto, as lutas não são entre quem mais se esperava - produtores regionais contra multinacionais, ou produtores locais contra os poderosos capitães da indústria. No mundo do vinho, os suspeitos do costume nunca são os esperados... Desde os multimilionários de Napa Valley, na Califórnia, passando pelas rivalidades de duas dinastias de aristocratas de Florença e pelas batalhas de três gerações de uma família da Borgonha, que resiste para conseguir conservar os seus poucos hectares de vinha, "Mondovino" apresenta a saga das sucessões no mundo do vinho em três continentes. Realizado por Jonathan Nossiter, o filme foi estreado mundialmente na Selecção Oficial do Festival de Cannes.PUBLICO.PT
O documentário ganhou um novo fôlego em sala e este "Mondovino" bem merece a atenção de um público alargado, na medida em que analisa, de forma implacável, os processos de globalização, a partir das contraditórias mafias que dirigem o negócio universal do vinho, fazendo com que, mesmo a nível das elites, se aspire, talvez em nome de um lucro fácil e imediato, à eliminação da diferença. Concebidos e promovidos por indivíduos conhecedores, mas envolvidos em negócios de mi-lhões, os vinhos parecem-se uns com os outros, de preferência perto do gosto dos mercados mais ricos (e menos exigentes), com o centro do Império Americano em destaque. A metáfora funciona, mas o filme poderia ter simplificado em tempo e em exemplos de globalização, dando maior representação à excepção que fura a regra, como aquele vinho da Sardenha que guarda os sabores ancestrais e únicos. Percebe-se o ponto de vista, é óptimo o desenvolvimento, mas uma montagem mais eficaz e económica poderia melhorar o "produto".
"In vino veritas": talvez nunca ninguém tivesse pensado que levar a expressão à letra fosse um ponto de partida para um filme. Jonathan Nossiter acreditou que podia encontrar uma verdade no vinho, uma verdade que estivesse para além da "verdade do vinho". Esta, aparentemente, está lá, pois não se fala de mais nada em "Mondovino" se não de vinho, da cultura do vinho, da indústria do vinho, da política do vinho - como num curso acelerado de introdução a nomes, marcas e métodos que acabasse por compôr um diagrama do "estado das coisas".
Jonathan Nossiter fez um filme sobre vinho que, tal como os documentários, dá ao espectador a sensação de que é um pioneiro a viajar pelo real que se está a desbravar naquele momento e como os filmes de ficção dá ao espectador um grupo de perso-nagens "bigger than life" que ocupam uma posição romanesca no nosso imaginário. É este o espaço de "Mondovino": um território de configuração incerta, parece que se expande e retrai, e assim nos desafia (às vezes não está à altura do desafio...). Não é muito diferente, afinal, do an-terior, e igualmente interessante, filme de Nossiter, um filme de ficção, "Signs and Wonders", que era uma aventura íntima pelo território virtual dos sentimentos.
"Mondovino" é um documentário sobre o "estado da arte" da produção mundial de vinhos de qualidade, pondo em confronto aqueles que defendem que os vinhos devem ser produzidos à escala local, para manterem incólumes as características (o chamado "terroir") que lhes dão qualidade e distinção, e aqueles que acham que os vinhos podem ser produzidos à escala global, não perdendo qualidade com isso, podendo até vir a ganhá-la. Ou seja, e numa leitura mais imediata, o filme indaga sobre os efeitos da globalização na indústria vinhateira, pondo em evidência aquilo que será a conjuntura dessa indústria, quais são os principais actores, as principais tendências, os movimentos económicos. É, digamos, olhar...