Estúdios: Rhombus Media Inc., TVA International CAN, 2003, Cores e P/B, 101 min.
argumento
1933. A Grande Depressão está no seu auge. Quando Chester Kent, um falhado empresário da Broadway, e Narcissa, a sua namorada amnésica, regressam à terra natal de Chester, deparam-se com uma espinhosa reunião familiar e um caótico concurso para encontrar a canção mais triste do mundo, organizado pela cervejaria local, dirigida pela amarga Lady Port-Huntly. Complexas ligações começam rapidamente a revelar-se: no passado, Chester e Lady Port-Huntly foram amantes, relação que também envolvia o pai de Chester, Fyodor. Ao mesmo tempo, Roderick, irmão de Chester, enfrenta o abandono da sua mulher- e não demora muito para percebermos quem é essa mulher. Sendo os três Kent músicos, rapidamente se deixam envolver na busca da canção mais triste do mundo... PUBLICO.PT
A "bizarria" de "A Canção Mais Triste do Mundo" não se contesta. Mas há bizarrias que o são apenas porque o são (questão de natureza) e outras que o são porque fazem muita força para o ser (questão de pose). O filme de Maddin enquadra-se na segunda categoria: reciclagem grosseira de mil e uma coisas diferentes (maneira de dizer: são muito menos do que mil e uma), pouco avança para além de um conjunto de caricaturas "referenciais" (e as "referências", aqui, são como as lebres), expostas de modo a que toda a gente as veja bem vistas. O mudo, o expressionismo? Macaqueados a torto e a direito, como "visual" e nunca como organismo (tipo MTV, se a MTV fosse para pessoas com uma memória mais vasta do que os últimos sete dias). Lynch, Bro-wning "Eraserhead", "Freaks"? Só se Lynch e Browning seme-assem almofadinhas pelos filmes para o espectador se reconfortar. O filme mais pateta do mundo? Muito possível.
Guy Maddin é um realizador com uma extensa obra experimental com algumas excelentes curtas-metragens e um olhar próprio sobre o imaginário cinematográfico do passado: "The Heart of the World", que passou, há uns anos, em concurso no Festival de Vila do Conde, demonstrava à exaustão uma capacidade de síntese para captar o lado icónico de algum cinema clássico. "A Canção Mais Triste do Mundo" capitaliza esta espécie de nostalgia, reconstituindo o ambiente da Grande Depressão, em tom de "pastiche" e de recreação gráfica: acentua-se o grão da imagem, tanto no preto-e-branco de super 8, como na cor, para funerais e cenas oníricas, saturada e transformada em fantasmagoria.