Estúdios: Fine Line Features EUA, 2004, Cores, 90 min.
argumento
Dez anos depois da morte do marido, Anna (Nicole Kidman) começa a recuperar a alegria de viver e a ganhar forças para iniciar um novo capítulo na sua vida sem Sean. Decide voltar a casar, com Joseph - um homem simpático que a galanteou durante os seus últimos anos de viúva. A decisão é do agrado da sua mãe e dos seus restantes familiares. Mas subitamente Anna começa a receber cartas que parecem escritas pelo seu falecido marido... E uma criança clama ser a reincarnação de Sean. PUBLICO.PT
Há filmes assim que prometem muito e acabam por não dar nada de novo, que convocam imagens e memórias de outros filmes, mas possuem pouco de seu. Este "O Mistério", segundo filme de Jonathan Glazer, autor de vídeos dos Radiohead, dos Blur ou dos Massive Attack, parece arrancar com uma excelente construção de atmosferas, a lembrar a Nova Iorque de Polanski, em "A Semente do Diabo": prédios misteriosos, corredores perturbantes, ângulos labirínticos na exploração dos espaços. O argumento passa por "estranhezas sobrenaturais": uma mulher de alta sociedade (Nicole Kidman em registo de frigidez militante) prepara-se para casar uma segunda vez, mas julga descobrir em Sean, um miúdo de dez anos, a reincarnação do falecido marido, Sean. É, aliás, a criança que insiste em não desistir da "esposa", levando, inclusive, a sequências particularmente penosas, como a do banho de ambos, com piscadelas de olho a uma pedofilia, apenas cuidadosamente sugerida.
Sensação de logro: um filme que provoca em várias frentes (o sobrenatural; o chamariz do escândalo pedófilo - Nicole e um rapazinho de 10 anos), mas é como quem toca e foge porque sem a coragem para lidar com as questões que convoca. E depois, Nicole Kidman está frígida como só ela o consegue ser - mas não tem a ver com a frigidez de "Retrato de uma Senhora", de Jane Campion, onde a frigidez correspondia a uma pulsão masoquista da personagem; não, aqui é mesmo inexpressiv-idade, sem mistério nenhum. É claro que de "Birth" também fica um olhar não usual sobre Nova Iorque, ou pelo menos não tão frequente deste o cinema americano dos anos 70. É o melhor do filme, mas não é pouco ser um filme de fotografia?
Neste género de filmes, habitualmente ficamos sem perceber alguma coisa. No final deste, além de não ter percebido nada, o sentimento prevalecente era aborrecimento. O defeito é certamente meu, pois se é/foi um filme tão aclamado...