Estúdios: Arclight Films EUA, 2004, Cores, 100 min.
Recomendado
pelo Cinecartaz
argumento
Uma dona de casa e o marido advogado. Um persa que é dono de uma loja. Dois polícias que são também amantes. Um director de televisão afro-americano e a sua mulher. Um mexicano serralheiro. Dois ladrões de automóveis. Um polícia recruta. Um casal coreano de meia-idade...
Todos vivem em Los Angeles e, durante 36 horas, vão entrar em colisão. Depois do 11 de Setembro, "Colisão" olha de forma provocadora para as complexidades da tolerância racial na América contemporânea.PUBLICO.PT
Boa descoberta, sim senhor. Haggis vem do argumento e da TV, e a evidência dessa escola (quer o argumento de "Colisão", à beira do exercício virtuoso em que tudo encaixa no sítio certo, quer a sua estrutura deambulante importada dum modelo de série de televisão) é a única coisa que pode irritar um bocadinho ("Colisão" é um tanto "smart" a mais, comprovamo-lo num breve plano com uma caixa vermelha). Fora isso, é inteligente, capaz de filmar o caldeirão étnico de Los Angeles sem contemplações mas também sem sensacionalismos nem dedos espetados, suficientemente hábil para desenhar personagens "inteiras" e contraditórias, tem ideias até no "casting" (casal mais higienicamente "branco" que Sandra Bullock e Brendan Fraser não há), e o talento necessário para construir sequências de tensão dramática sem falhas (Matt Dillon está nas duas melhores). Não é genial, mas é o tipo de filme adulto que vai rareando.
A ideia de argumento passa pelo cruzamento de histórias, partindo do acidente que dá título ao filme. A partir daí assistimos a uma elaborada teia ficcional, que lembra "Short Cuts" de Altman, embora se concentre em choques (de novo a ideia de colisão) de classe e de raça: personagens chicanas e negras inscrevem-se na narrativa uma dimensão essencial, que nunca passa, no entanto, por redutores estereótipos. Filme de argumentista - Paul Haggis assina também o guião de "Million Dollar Baby" - nunca descura o modo de contar, a noção de que um filme só existe quando a imagem se adequa aos objectivos da narrativa, mesmo que ela seja dominante. Um bom primeiro filme e uma carreira a seguir com muita atenção.
É um verdadeiro espectáculo assistir à troca de características entre as personagens, todos passam por metamorfoses, ninguém é bom nem mau, ninguém é imutável e tudo o que acontece no futuro é sempre em maior grau do que acontece no passado, como se a acção sofresse um crescente de intensidade. Quem é mau no fim é pior que quem é mau no início (e não são a mesma pessoa) e para o lado das características positivas acontece exactamente o mesmo. Só vendo e saboreando até ao fim...