Num quarteirão insalubre e de má reputação no Oriente, há um bordel, um covil cheio de fumo, que atrai ocidentais em busca de prazeres. Em palco, um velho capitão pirata conta a história de uma pirata viúva, a célebre Ching. Clientes e espectadores são transportados para a China do século XIX a bordo do navio da viúva Ching, que depois do assassinato do marido assume o comando dos seus homens para se vingar e lavar a sua honra. Destemida, nem mesmo a armada do Imperador ela teme atacar. "Cantando por Detrás das Cortinas" foi realizado por Ermanno Olmi ("A Árvore dos Tamancos") e tem como protagonista, no papel do velho pirata, Bud Spencer, conhecido pela sua actuação em westerns "spaghetti" tais como "Trinitá - O Cowboy Insolente". PUBLICO.PT
Olmi merecia uma releitura atenta, de tal modo a sua
vasta obra (dezenas de "invisíveis" curtas e duas obrasprimas do pós-neorealismo, "O Emprego" e "A Árvore dos Tamancos") cobre uma vasta panóplia de interesses, desde a meditação religiosa à aventura, com o discurso televisivo por pano de fundo, sem que isso constitua motivo de embaraço para o cineasta.
Este "filme de piratas", pleno de humor e de bizarras convenções constrói como um belo quadro, sempre com a perfeição pictórica em mente. O teatro no teatro funciona como artifício exposto para melhor sublinhar o lado de fábula, ocultando a violência da acção num discurso elíptico essencial. Não é o melhor Olmi, mas é proibido perder.
Pouco visto em Portugal, Ermanno Olmi é um realizador da velha guarda italiana, pertencente aquela geração que chegou ao cinema no pós-guerra, em plena vigência do neo-realismo. Nascido em 1931, realizou o primeiro filme (uma curta chamada "El Frayle") em 1953, o que faz dele, na actualidade, um dos realizadores há mais tempo em actividade. Com a sua primeira longa-metragem ("Il Tempo si é Fermato", de 1958), e depois com "Il Posto" e "I Fidanzati", no princípio da década de 60, afirmou-se como herdeiro e renovador do neo-realismo italiano, sem prejuízo da afirmação vincada de uma personalidade própria. Nos anos 70 ganhou a Palma de Ouro de Cannes com "A Árvore dos Tamancos" (1978), revisitação tardia e "campestre" de um neo-realismo depurado e de matriz porventura mais rosselliniana do que zavattiniana que se tornou no seu filme mais célebre. O último filme de Olmi estreado em Portugal (dos poucos que foram estreados) foi "A Lenda do Santo Bebedor" (1988), que trazia bem à vista (e bem no centro) a dimensão religiosa que nunca deixou de percorrer o seu cinema (por vezes de modo bem expresso: "E Venne un Uomo", de 1965, é um ensaio biográfico sobre o Papa João XXIII, com Rod Steiger).